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Mkay?

Lembra quando eu disse que daria tudo certo?
Quando a briga se transformou num beijo e seu ódio se transformou em juras de amor e eu te olhei, e te vi de verdade ali, descrito em atitudes, mas te disse que tudo estava bem.

Lembra quando eu disse que eu perdoava mas não esquecia?
Quando o insulto se tornou elogio eu te acolhi, te abracei e te disse que a gente estava bem, que tudo daria certo, mas você não se perdoou e o fato de eu não esquecer criou gotas de um veneno que você mesmo se oferecia diariamente.

Lembra quando eu disse que você não era uma pessoa ruim?
Que toda a raiva derivava de um desconhecimento seu, que tudo melhoraria com o tempo e que a gente ia superar, que tudo daria certo, que tudo estaria bem.

Quando comecei a achar que tudo daria errado? Lembra?

Vintetrês

Essa segurança, essa certeza,  são partes do que sempre admirei em você.

Eu não me sinto seguro, não tenho certezas. Eu acho, eu imagino, eu espero, e é nesse constante loop de achar, esperar e imaginar que eu permaneço sem me encontrar.

A vida passa e sinceramente, eu me perco cada vez mais. Não é como se eu não soubesse concertar o que há de errado, talvez eu saiba e eu tenho uma certa vontade até, de corrigir o problema em mim e de talvez ser um pouco mais... certo.

Eu sempre achei que apesar de tudo que nós compartilhamos, tudo o que nos fazia tão perfeitos e que nos transformava num barquinho tranquilo em meio a um oceano de caos, havia uma grande diferença entre nós. E talvez eu tivesse medo de trazer isso a tona, ou melhor, eu escolhia não fazê-lo porque nos meus vinte e três anos de existência eu me tornei mestre em me esconder de mim mesmo.

Eu te amei porque você era incrível ao ponto de me fazer melhor, porque amar uma escritora, que sabia me ler tão profundamente me fazia a…

Poder de se perder

O dia foi ótimo, estar tão longe de casa trazia para ele uma segurança tremenda. Coisa estranha de se pensar, mas não deixava de ser verdade.

O frio tinha cessado pelo primeiro dia desde que tinha chegado, resolveu sair do quarto e aproveitar as últimas horas naquele lugar tão pesado de história e tão despido de tradicionalismo. No caminho do terraço prestou atenção em detalhes que não havia visto até então, pequenos prazeres como a simetria entre o padrão do carpete nos corredores e as pequenas luminárias no teto ou o eco estranho que era produzido pelo seus passos ao subir as escadas.

Já a céu aberto a brisa lhe atingiu, fechou os olhos no caminho dali até o guarda corpo mais a frente, quando os abriu novamente o som da rua abaixo foi abafado pela beleza das luzes a sua volta. Olhou para cima, a Lua reinava soberana, sua luz superava as artificiais e conseguia delinear as curvas das montanhas que sentavam caladas no horizonte.

Ficou ali, de cabeça quase vazia por meia hora ou mais. …

Falling, floating, fucking up.

There's something deeply wrong with him.
I've known him for ten years now. We're the same age, but at the time I wasn't really interested in the things people my age talked about and he wasn't either, so it was easy for him to work his way into my life.
He would show up only once or twice a week, and he wouldn't stay for long most of the times. We didn't even talk that much, it was just being in the company of one another. He always had something exciting and interesting to tell me, but after ten minutes into his monologue he would stop and just be there.
I don't know why but I don't quite like him, I mean... he's interesting. And I like that he's everything I would like to be. But if I had a choice I'd make him go away.
As we grew up he started showing up more often, and the conversations grew longer as well, I started interacting more, and talking to him about my life, things that happened during the day. He's a good listener, but …

Caroline

Caroline era daquelas que gostava de tudo, ria de tudo, comia de tudo e não reclamava de nada. Conheci-a quando estava sentado num banco esquisito da praça que visitava sempre, o pior dos bancos porque o sol o alcançava na hora do almoço e eu precisava sentar numa posição desconfortável para me esconder dele.

Caroline chegou, sentou no sol mesmo, tirou uma caixinha transparente da bolsa e me ofereceu um dos brigadeiros que carregava nela. "Estão meio amassados mais são deliciosos", ela disse com um sorriso infinitamente mais convidativo que a aparência das guloseimas.

Aceitei com um aceno de cabeça,e na primeira mordida a olhei com um olhar que expressava plenamente o sabor da bolinha deformada, ela concordou com um olhar e um sorriso, e mordeu um outro que tirara da caixinha para compartilhar comigo a experiência.

O dia estava uma merda, estava preocupado, cansado, irritado, frustrado. Caroline olhou para a praça ensolarada, deu a segunda e última mordida em seu brigadeiro …

Garranchos Indecifráveis

Comprei um journal, não vou chamar de diário porque associo a palavra a algo infantil e também porque a ideia não é escrever todos os dias então o termo perde o sentido.

Fiquei décadas para começar a escrever no tal do journal, primeiramente porque eu coloquei uma série de empecilhos que me impediam de iniciar a tarefa rapidamente. Uns requisitos bestas que não fazem sentido para ninguém além de mim mesmo: o caderno tinha que ser tipo moleskine, pautado ou pontilhado mas as folhas não poderiam ser brancas. A caneta tinha que ser tinteiro porque... porque não? A tinta da caneta tinha que ser preta porque escrever em azul me lembra escola/trabalho e eu queria que o ato de escrever fosse prazeroso, da mesma forma que é aqui.

Já escrevi algumas vezes, não com a frequência que eu gostaria, assumo... e o fato de ter me acostumado a escrever em meio digital, onde apagar e rearranjar frases é fácil, me atrapalha. O resultado são textos que fazem sentido absoluto antes de existirem fisicamente…

Na última noite...

Ele a viu feliz pela primeira vez em meses, depois de uma longa batalha os dois estavam finalmente bem, feridos mas bem. E ele se permitiu entrar no lugar com um sorriso que pudesse encontrar o dela.

Do outro lado do salão ela conversava de taça na mão com homens mais sérios que ele. Com um sorriso e um leve aceno, pediu que lhes dessem licença, o havia visto... e atravessou o lugar num passo leve, mantendo sorriso e olhar fixos nele.

Alguns segundos estranhos passaram enquanto um carregava o olhar do outro através do salão. Ela parou pouco antes de alcançá-lo... ele a parabenizou, mesmo de longe. Em troca, ela olhou através dele e não ouviu nada, se aproximou radiante, tomada por uma alegria imensa, e o abraçou da mais sincera forma.

"Obrigada por vir" - Ela sussurrou em seu ouvido.

Os olhos dele brilharam em preparação para um aguaceiro. Manteve a compostura, por ela. O abraço teve fim um milênio depois, o mundo voltou a girar e ela não disse mais nada, foi puxada por uma …

Comosenem

Naquele dia ele estava lá, e se eu soubesse não teria aparecido.

Não é que eu não saiba que você divide comigo o que divide com ele, não é segredo. Você não esconde, aparece cheirando a ele como se não percebesse... como se o ciúme despertado te trouxesse prazer maior.

No começo era excitante saber que tu chegava em casa e tinha que mentir, saber que talvez ele notasse a marca dos meus dedos na tua coxa, ou o cheiro do meu suor nos teus cabelos. Chegava a ser engraçado o fato de que eu cruzava com ele na rua e ele me dizia "oi" como se nem. Como se nem odiasse o fato de ter que dividir.

Aí o tempo foi passando e eu parei de imaginar a tua desculpa para o vestido amassado, parei de tentar buscar nos teus olhos o motivo do arranjo, parei de procurar o sentimento que não ia achar... passei a fingir que eu era ele, que era eu que andava de mãos dadas contigo na praça, que era eu que ria contigo na livraria.

Mas não era, eu ficava com as sobras... com os dias que ele não estava l…

No primeiro dia

Acordei vinte para as seis da manhã, apesar do fuso diferente meu corpo se adaptou imediatamente e não perdeu a oportunidade de me avisar que estava pronto para o trabalho. Minhas pálpebras se afastaram os milímetros necessários para analisar o quarto, e meu peito se expandiu num breve porém profundo suspiro de alívio quando percebi que realmente estava longe de tudo.

Não havia necessidade de correr para me preparar para mais um dia, eu tinha todo o tempo do mundo para desfrutar daquele lugar estranho. E a paz desta constatação inundou cada centímetro do meu corpo, que de preguiça penetrava cada vez mais no colchão macio, dando um sentido nunca antes tão verdadeiro a palavra aconchego.

De um lado, a janela emoldurava uma paisagem histórica que num simples olhar trazia tantas perguntas; do outro, um corpo adornado por um lençol branco aproveitava os recém descobertos prazeres duma estranha cama de despreocupação.

Observei às duas paisagens por um par de horas que transcorreram em um se…

And a far away friend said:

Our parents are the real gods. Gods that we can see and touch.