Vintetrês

Essa segurança, essa certeza,  são partes do que sempre admirei em você.

Eu não me sinto seguro, não tenho certezas. Eu acho, eu imagino, eu espero, e é nesse constante loop de achar, esperar e imaginar que eu permaneço sem me encontrar.

A vida passa e sinceramente, eu me perco cada vez mais. Não é como se eu não soubesse concertar o que há de errado, talvez eu saiba e eu tenho uma certa vontade até, de corrigir o problema em mim e de talvez ser um pouco mais... certo.

Eu sempre achei que apesar de tudo que nós compartilhamos, tudo o que nos fazia tão perfeitos e que nos transformava num barquinho tranquilo em meio a um oceano de caos, havia uma grande diferença entre nós. E talvez eu tivesse medo de trazer isso a tona, ou melhor, eu escolhia não fazê-lo porque nos meus vinte e três anos de existência eu me tornei mestre em me esconder de mim mesmo.

Eu te amei porque você era incrível ao ponto de me fazer melhor, porque amar uma escritora, que sabia me ler tão profundamente me fazia acreditar que um dia eu também pudesse me ler.

Hoje eu sou bem diferente do que eu era, mas não sei se sou melhor. Lá atrás eu me olhava no espelho e eu via quem eu achava ser, quem eu tentava me moldar para ser. Mas agora que o tempo de moldar passou eu não me (re)conheço mais.

Essa segurança e essa certeza que eu nunca tive são um horizonte cada vez mais distante. Pode ser que eu me permita muito mais, mas eu ainda não sou quem eu sou de verdade.

Faz tempo que não escrevo assim aqui, faz tempo que não escrevo pra você. E os textos que escrevi nesse período fazem parte desse processo complexo de tentar me desvendar. Deixo sair uma pequena palavra dessas que compõem meu verdadeiro ser esporadicamente, na esperança de uma delas ser a ponta do novelo que se puxada vai me definir para mim e para quem convive comigo.

Talvez você seja a pessoa que mais saiba sobre mim, e isso só aconteceu porque eu sabia tanto sobre você.

Fico muito feliz que esteja de volta, sempre tenho saudades de te ler e o simples fato de saber que você existe em carne, osso e palavra transforma o meu mundo.

Poder de se perder

O dia foi ótimo, estar tão longe de casa trazia para ele uma segurança tremenda. Coisa estranha de se pensar, mas não deixava de ser verdade.

O frio tinha cessado pelo primeiro dia desde que tinha chegado, resolveu sair do quarto e aproveitar as últimas horas naquele lugar tão pesado de história e tão despido de tradicionalismo. No caminho do terraço prestou atenção em detalhes que não havia visto até então, pequenos prazeres como a simetria entre o padrão do carpete nos corredores e as pequenas luminárias no teto ou o eco estranho que era produzido pelo seus passos ao subir as escadas.

Já a céu aberto a brisa lhe atingiu, fechou os olhos no caminho dali até o guarda corpo mais a frente, quando os abriu novamente o som da rua abaixo foi abafado pela beleza das luzes a sua volta. Olhou para cima, a Lua reinava soberana, sua luz superava as artificiais e conseguia delinear as curvas das montanhas que sentavam caladas no horizonte.

Ficou ali, de cabeça quase vazia por meia hora ou mais. Tinha essa mania de se perder no vazio das coisas.

Esse poder de se perder.

Sentiu quando a mão tocou seu ombro descoberto, só então percebeu que a blusa havia ficado no quarto. Não olhou para trás pois o toque lhe era familiar. A presença cresceu e se pôs ao seu lado, admirando as luzes como ele fazia... o suspiro que seguiu lhe trouxe ainda mais calma. Estava bem, estava seguro, estava aceito.

Cedeu e passou a fitar quem lhe fizera sentir tão bem durante a viagem, as luzes do terraço estavam apagadas mas os contornos do rosto eram visiveis graças ao bom trabalho da Lua. Os olhos estavam fechados, a expressão era de tranquilidade absoluta.

A brisa retornou com mais força e ele fechou os olhos novamente, sua dança durou mais tempo desta vez, o frio voltaria em breve.

- Pronto pra voltar pra casa? - Disse ele.

Alguns minutos se passaram antes da voz que o acompanhava responder.

- Achei que estava em casa.

trocaram um longo olhar e um sorriso.

era verdade.

estavam em casa.



Falling, floating, fucking up.

There's something deeply wrong with him.

I've known him for ten years now. We're the same age, but at the time I wasn't really interested in the things people my age talked about and he wasn't either, so it was easy for him to work his way into my life.

He would show up only once or twice a week, and he wouldn't stay for long most of the times. We didn't even talk that much, it was just being in the company of one another. He always had something exciting and interesting to tell me, but after ten minutes into his monologue he would stop and just be there.

I don't know why but I don't quite like him, I mean... he's interesting. And I like that he's everything I would like to be. But if I had a choice I'd make him go away.

As we grew up he started showing up more often, and the conversations grew longer as well, I started interacting more, and talking to him about my life, things that happened during the day. He's a good listener, but at the same time he isn't... it's his way of helping I guess, he interrupts me when I'm talking and just changes the subject abruptly. At first I didn't get it but now I think he doesn't want me to get upset. So he probably just thinks he made the problem go away by replacing it with something else. 

It helps. 

Actually, it only helps while he's still talking, problems are persistent that way, go figure.

Before I met him I was less... How can I put it? I was less conflicted. My mind just worked a lot better before, life was easier and I lived in this bubble, this little protected box that made me... sane?

After a year or so of listening to him questions just kept being born, and ultimately that little box wasn't big enough and it popped open. I can't really put a date to it, It was gradual but at the same time it was sudden enough to mess me up in this very shitty way.

He's not at fault here, he's just the tool that helps me become myself. But at the same time I blame him for making me realize that the box was too small for me. I blame him for making me realize boxes are not made for people.

I hate him ninety eight percent of the time, but that two percent is enough for me to keep him around. I don't actually have a choice... he's now this huge part of who I am, maybe I can't even be a person anymore without him there.

He's vicious though, he's angry all the time. I can see it in his eyes, these dark brown eyes... the kind that if you're not careful enough, make you jump into the darkness never to be seen again.

Ok, he's not angry all the time. I mean... he can not be angry if he want's to.

He's never wrong,  always tells the truth, and points out things that I hate about myself, sometimes I ignore him, sometimes I just zone out of the conversation and just tune back in when he's gone... Sometimes he wins though. Lately he wins more and more.

But he has this way of showing me what I love about myself as well. Madness! Pure distilled madness.

I think our relationship would be a lot easier if I could just introduce him to people... but I can't. People won't be able to bare him, or even worse... they will. I don't know how to react to both options. Once I do introduce him, there's no un-introducing, and even if I manage to hide him again, or just pretend he's never there... nothing will be the same.

But after ten years nothing is the same anymore... Is it?

Maybe I've known him for longer...

You see? He's troubled.

Caroline

Caroline era daquelas que gostava de tudo, ria de tudo, comia de tudo e não reclamava de nada. Conheci-a quando estava sentado num banco esquisito da praça que visitava sempre, o pior dos bancos porque o sol o alcançava na hora do almoço e eu precisava sentar numa posição desconfortável para me esconder dele.

Caroline chegou, sentou no sol mesmo, tirou uma caixinha transparente da bolsa e me ofereceu um dos brigadeiros que carregava nela. "Estão meio amassados mais são deliciosos", ela disse com um sorriso infinitamente mais convidativo que a aparência das guloseimas.

Aceitei com um aceno de cabeça,e na primeira mordida a olhei com um olhar que expressava plenamente o sabor da bolinha deformada, ela concordou com um olhar e um sorriso, e mordeu um outro que tirara da caixinha para compartilhar comigo a experiência.

O dia estava uma merda, estava preocupado, cansado, irritado, frustrado. Caroline olhou para a praça ensolarada, deu a segunda e última mordida em seu brigadeiro e disse, ainda mastigando: "Que dia lindo, não é?", em seguida, olhou para mim pelo canto do olho, aguardando minha aprovação.

Acenei novamente com a cabeça.

Em que mundo vivia Caroline?

Ela permaneceu sentada no mesmo lugar por mais quinze minutos, dividindo comigo seus brigadeiros e suas observações sobre como a praça estava ficando cada vez melhor com as ultimas mudanças e como o som da brisa nas árvores parecia formar a trilha sonora perfeita para sentar lá e admirar o dia passando.

Seu almoço terminou, ela guardou a caixinha vazia de brigadeiros na bolsa e levantou num salto. Se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha: "Muito bom falar com você!", um largo sorriso surgiu e ela seguiu com ele pela rua estreita de pedras, em câmera lenta... pelo que pude observar.

Quem matou Caroline?

Garranchos Indecifráveis

Comprei um journal, não vou chamar de diário porque associo a palavra a algo infantil e também porque a ideia não é escrever todos os dias então o termo perde o sentido.

Fiquei décadas para começar a escrever no tal do journal, primeiramente porque eu coloquei uma série de empecilhos que me impediam de iniciar a tarefa rapidamente. Uns requisitos bestas que não fazem sentido para ninguém além de mim mesmo: o caderno tinha que ser tipo moleskine, pautado ou pontilhado mas as folhas não poderiam ser brancas. A caneta tinha que ser tinteiro porque... porque não? A tinta da caneta tinha que ser preta porque escrever em azul me lembra escola/trabalho e eu queria que o ato de escrever fosse prazeroso, da mesma forma que é aqui.

Já escrevi algumas vezes, não com a frequência que eu gostaria, assumo... e o fato de ter me acostumado a escrever em meio digital, onde apagar e rearranjar frases é fácil, me atrapalha. O resultado são textos que fazem sentido absoluto antes de existirem fisicamente e, no tempo em que a tinta leva para fluir do reservatório para a ponta da caneta e desta para o papel, se transformam num amontoado de frases desconexas e incoerentes.

Não sei escrever. É a conclusão obvia da minha mente afobada, e faz sentido... tenho que reaprender a escrever nesse novo meio. Na verdade, tenho que aprender a escrever... porque com exceção do trabalho e da escola, nunca escrevi com tinta e papel.

E escrever em papel não é fácil, requer um esforço maior que aparentemente me impede de formar frases coerentes rapidamente como acontece num computador. No papel, a "fonte" demanda atenção: não adianta escrever em garranchos indecifráveis. A mudança de linha não é automática e exige uma série de decisões: separar ou não as sílabas? essa palavra cabe ou não cabe?

Coisas simples também são impossíveis no papel. Um parágrafo que se divide em dois facilmente num editor de textos não tem a mesma mobilidade e capacidade de transformação numa folha. Assim como meu hábito de capitular o não capitulável, que é mero inconveniente num texto formado por pixels, e no papel é um monstro que exige patrulha constante.

E tem o erro, o erro não existe no digital. Já no físico.

Fora a sinceridade, depois de anos aprendendo a ser sincero no digital, me sinto acanhado no papel. O caráter mais permanente do papel e o fato dele estar lá, disponível na gaveta física do meu quarto, escrito com a minha letra, expondo os meus erros, assusta.

Estranho esse papel.