O sol mal havia saído e na varanda do sobrado lá estava ela, a camiseta mais larga e velha que possuía cobria a pele do torso imaculado e os primeiros centímetros das lindas pernas, todos sabiam que em baixo daquele tecido velho e rasgado seu corpo estava deliciosamente nu. Dos passantes ninguém deixava de lançar um olhar a linda mocinha de cabelos negros que aguava gérberas coloridas na varanda como se o mundo não existisse, ou melhor, como se apreciasse os olhares desejosos da ruazinha pacata.

Estava em frente ao sobrado, sentado num banquinho e lendo um romance qualquer quando ouvi a voz doce tentando me chamar a atenção, o nome era Sara e ela o pronunciava com um ésse curto e impactante, me perguntou o que eu lia e eu disse, me disse que a porta estava aberta e que queria ver o livro.

Subi os quatro degraus que separavam a rua de paralelepípedos da entrada florida do sobrado, a porta era enorme, assim como a sala que enxerguei logo que entrei, ela desceu logo a escada que dava para o que aparentava ser o quarto, um sorriso indecifrável permeava seus lábios finos e úmidos, a camiseta ainda era tudo que vestia, me levou pela mão até a cozinha tomada pelo sol da manhã, sentou na mesa, pegou o romance qualquer e começou a folheá-lo.

Nada disse por vários minutos e pelos mesmos vários minutos me mantive observando-a lendo: dos olhos percorrendo as páginas ao corpo perfeitamente delineado na camiseta fina contra a luz. Quando me olhou de volta chamou o autor de patético e me disse que não me enxergava lendo tamanhas trivialidades no papel, confessei que o livro era emprestado forçadamente por um amigo.

Pegou o volume e o pressionou contra os seios enquanto me contava de um romance que lera anteriormente, descreveu em detalhes as personagens enquanto me atravessava com um olhar imaginativo, claramente aquele era um livro que ela desejava escrever, o Livro de Sara. Quando terminou jogou o romance qualquer na lixeira e gargalhou ao pontuar que o mundo só era bom com bons livros, este não faria falta.

Levantou e correu para a sala, de onde Ne Me Quitte Pas começou a tocar em uma vitrola. Quando cheguei ao cômodo Sara não estava mais lá, apenas a escada coberta com a camiseta velha, subi calmamente para vê-la dançar nua ao som da música e cantar em uníssono ao disco que ressoava por entre as paredes do sobrado.

Lá estava eu e Sara, sozinhos, lá estava Sara sozinha. Me despiu ainda dançando antes de me convidar a me juntar a ela, nenhuma palavra foi dita quando nos deitamos, a única coisa que nos cobria era a luz de ouro que ultrapassava o tecido das cortinas e a brisa que entrava pela varanda, as únicas coisas que se ouviam eram suspiros e a voz que musicava verbos franceses, agora aparentemente distantes.

Nunca quis deixá-la, jamais... Amei Sara ali, onde era rainha e o amor era rei, onde não precisei inventar palavras sem sentido para justificar atitudes injustificáveis. A vida continuava lá fora, os passantes imaginavam o que Sara fazia além da varanda, além dos vasinhos povoados por gérberas coloridas, mas poucos sabiam que ali Sara escrevia seu romance, o Livro de Sara, um romance que de "qualquer" não tinha sequer o nome, perfeitamente enunciado com um ésse deliciosamente curto e marcante.