O sonho é extremamente confuso. Lá estou eu, numa rua movimentada em um país desconhecido, os prédios não são tão altos, pintados em cores pasteis, portais cobertos com flores brancas são comuns. Todos parecem felizes, estou conversando com alguém, uma menina, ela aparenta ser bem mais jovem que eu, é baixinha e sorri de excitação enquanto fala sem parar:
- Aposto que ficou feliz em me ver, agora está tudo resolvido, fugi sem deixar nenhum vestígio, podemos viver juntos sem medo, já até circulei alguns apartamentos nessa área, são pequenos mas é isso que você sempre quis não é? Um lugar pequeno com uma vista incrível? - Ela diz abanando um panfleto de imobiliária.
- Como você me achou? - Perguntei, cada vez mais confuso.
- Você disse que me esperaria aqui caso eu fugisse, lembra bobinho? - Ela disse sorrindo, mas minha expressão deve a ter assustado, já que em milésimos de segundo toda sua felicidade se esvaiu.
- Ele sempre nos encontra, você sabe disso por que você insiste em fugir?
- Eu não o amo, você sabe disso, minha vida com ele é um erro e quero consertá-la, quero viver com você.
Abracei-a com um dos braços e a  conduzi através de um dos portais floridos, bancos nos aguardavam do outro lado, o início de um jardim era visível, este continuava pelo horizonte até que o verde se misturava com um azul intenso, talvez o mar.
- Ele é o seu marido!
- Contra a minha vontade, você mesmo disse que a lei estava errada, que obrigar alguém a se casar é um absurdo...
- Sei que disse isso, mas a lei é a lei, não há nada que podemos fazer.
- Podemos fugir para longe - Os olhos dela voltaram a brilhar - Para além dos jardins, lá os guardas não patrulham, uma amiga me disse que tem muita gente que vive assim, e retorna a cidade apenas para o essencial.
- É perigoso, sabe que estamos protegidos apenas do jardim para cá. E, se ficarmos juntos, nem aqui será seguro, entenda que seu lugar é ao lado dele, se houvesse uma brecha, uma opção, eu já a teria explorado. Você deve ir agora, ele  deve estar a sua procura.
- Não vou voltar, veja... - Ela ameaçou abrir o vestido, segurei suas mãos antes que ela conseguisse desfazer um pequeno laço.
- Ficou maluca? E se nos veem?
Ela riu:
- Calma seu bobo, não vou me despir em área pública, sei que é contra a lei. - O laço se desfez e ela alargou o decote, seus seios estavam cobertos por um tecido fino, mas opaco, ela indicou um frasco, atado abaixo de sua axila...
- O que é isso? - Perguntei espantado, ela não poderia ter...
- É veneno. Consegui extrair de uma das flores proibidas antes que os guardas a arrancassem do jardim, perto da casa dele.
- Você... você... quero dizer.
- Sim, claro que dei pra ele beber, acha que conseguiria fugir mais uma vez se não tivesse?
- Pelos deuses, você realmente enlouqueceu... - Senti medo, medo dela ser tirada de mim, desta vez para sempre.
- Você ainda me ama? - Ela interrompeu meus pensamentos...
- Mas é claro, preciso pensar... temos que fugir agora mesmo, a patrulha vai começar ás sete e já são quatro horas, se não partirmos agora os guardas vão encontrá-lo e virão atrás de nós, temos que estar na floresta antes disso, ou será tarde. Não acredito que você não me disse que tinha feito isso antes, cada minuto conta e...- Ela me abraçou e disse, como se não tivesse ouvido nada além do "mas é claro":
- Sabia que ainda me amava.
E eu acordei, com o coração na garganta.