Naquele dia ele estava lá, e se eu soubesse não teria aparecido.

Não é que eu não saiba que você divide comigo o que divide com ele, não é segredo. Você não esconde, aparece cheirando a ele como se não percebesse... como se o ciúme despertado te trouxesse prazer maior.

No começo era excitante saber que tu chegava em casa e tinha que mentir, saber que talvez ele notasse a marca dos meus dedos na tua coxa, ou o cheiro do meu suor nos teus cabelos. Chegava a ser engraçado o fato de que eu cruzava com ele na rua e ele me dizia "oi" como se nem. Como se nem odiasse o fato de ter que dividir.

Aí o tempo foi passando e eu parei de imaginar a tua desculpa para o vestido amassado, parei de tentar buscar nos teus olhos o motivo do arranjo, parei de procurar o sentimento que não ia achar... passei a fingir que eu era ele, que era eu que andava de mãos dadas contigo na praça, que era eu que ria contigo na livraria.

Mas não era, eu ficava com as sobras... com os dias que ele não estava lá, com as noites em que ele não notaria sua ausência.

Naquele dia ele estava lá, e se eu soubesse teria aparecido antes.

Percebi que ele era parecido comigo, que te olhava com o mesmo olhar, com aquele olhar de incerteza, de desconfiança. Aquele olhar de quem sabe e não quer dizer.

Mas os três sabiam. Então entrei, sentei, liguei a TV e chamei pra ver comigo.

Chamei ele pra ver comigo.

E ele sentou, e nos conversamos, rimos, nos demos bem.

E você diminui num sofá distante, como se nem. Como se nem odiasse o fato de ter que dividir.