Paul surgiu numa tarde de verão, daquelas bem tediosas e quentes, daquelas que eu odeio, eu estava sentado em baixo de uma árvore que não sabia (e ainda não sei) o nome, a copa era grande e as pequenas folhas estavam presas à pequenas hastes que pendiam dos galhos, a árvore parecia chorar e eu estava com cara de poucos amigos.

Já Paul estava visivelmente alegre, andava pela praça normalmente quando me viu, sentando sob  a árvore chorona, e veio ao meu encontro. Sentou ao meu lado e perguntou se eu não adorava o som dos passarinhos logo acima de nós. Eu disse que não. Paul riu.

Me perguntou o nome, eu disse, me perguntou onde estudava, eu disse, me perguntou se eu morava por perto, eu não disse e perguntei o motivo do interrogatório. Ele disse que me conhecia de algum lugar, eu disse que provavelmente não. Ele disse que deveria ter me visto um dia desses, eu disse que talvez.

O rosto de Paul parecia não reagir a minhas tentativas falhas de fazê-lo desaparecer, e ele continuou a monologar por um tempo. Falou que tinha gostado de conversar e que esperava me ver novamente, perguntou se eu ficava sempre na praça, eu disse que não, perguntou se eu ficava em outro lugar, eu disse que não. Foi embora.

No dia seguinte Olívia havia me ligado e dito que tudo era complicado, eu concordei e desliguei o telefone com um tchau pouco esperançoso. Paul apareceu novamente, sentou do meu lado e não disse nada... não disse nada por muito tempo, até que eu não aguentei e perguntei o que ele estava fazendo.

Me disse que tinha falado demais no dia anterior, e achou melhor me dar espaço pra falar desta vez. Aparentemente eu gostei daquilo, porque falei, falei incontrolavelmente, sobre minha vida de merda, sobre algumas coisas que estavam acontecendo no trabalho, sobre Olívia, sobre indecisão, sobre gostos e desgostos, falei sobre tudo. Paul ouviu e não me julgou, se mostrava interessado e preocupado.

E todos os dias das próximas duas ou três semanas foram como um ritual, eu sentado sob a árvore chorona, Paul chegando logo depois, eu falando verborragicamente por um par de horas, Paul ouvindo, depois comentando, depois falando também.

E foi assim até que um dia eu estava novamente com cara de poucos amigos, me atrasei e quando cheguei ví Paul sob a árvore chorona, seu sorriso usual não estava lá. Eu parei, respirei fundo e me contive a observar, Paul se manteve alí por duas horas, olhava frequentemente para o relógio, seu rosto cadavez mais sem expressão. Levantou, olhou para os lados, pegou uma das hastes cobertas de folha da árvore chorona, colocou no bolso e saiu, calmamente.

Pensei em voltar à praça por várias vezes nos dias seguintes, mas não o fiz.