A tarde não estava particularmente fria, o inverno havia acabado de começar e o aquecedor da casinha não precisava se esforçar muito para nos aquecer. Olivia estava deitada no sofá, vestida com sua gigantesca blusa de lã. Claramente ela não se importava com o fato de um dos ombros estar descoberto, eu também não.

Ela lia versos aleatórios de um livrinho antigo, de capa dura, comprado numa feirinha de velharias em Buenos Aires e que nos chamou atenção por estar em português, um pedacinho do país que deixamos, um suspiro brasileiro no meio de montanhas de exemplares hermanos.

Ocasionalmente levantava os olhos para garantir que eu a estava ouvindo, e por ouvindo eu quero dizer que ela exigia atenção completa, não gostava de dividi-la, nem com nossa chaleira que insistia em interrompê-la antes de terminar de recitar Bandeira.

Olívia repetia suas estrofes e versos favoritos e me fazia repetir os meus, e frequentemente corrigia minha memória falha que se perdia nos versos sujos de Gullar, com seu olhar penetrante de uma desaprovação descaradamente falsificada.

Olívia amava morar em meio ao nada, adorava o fato do nosso vizinho mais próximo ser um passarinho conversador e madrugador, que ignorava o frio assim como ela ignorava boa parte do mundo. A moça vivia num universo paralelo e eu me sentia muito feliz em ser parte dele. Aprender a enxergar pelos olhos de Olívia era como passar a ver cores depois de viver num mundo acinzentado.

Descansei a bandeja na mesinha de centro, servi o chá e lá ficamos, o livrinho dormiu ao lado do bule, junto com os poetas e os poemas. Olívia e eu dormimos no sofá mesmo, ao som do vento fazendo ranger a casinha de madeira, casinha de gente feliz.