Brasileiro se ofende com pouco, e isso não é novidade para ninguém. Seja com uma piada, seja com uma menção, seja com um olhar... para ofender basta existir perto de alguém que se julga fraco, oprimido, ou "menor".

Brasileiro também é mestre em agir desproporcionalmente em relação aos acontecimentos, isso fica claro quando um avião cai e de repente, por piedade ou por ignorância, o brasileiro resolve acabar com as chances de um futuro melhor. Também fica claro quando um boato vira motivo para linchamento.

Mas não vim falar disso, disso todo mundo já sabe, pode escolher virar a cara para os fatos, mas eles estão lá, brasileiro não sabe lidar racionalmente com as coisas.

Não me tiro do balde de laranjas podres aqui, não sou inocente deste crime, posso ser facilmente persuadido mas também consigo pensar criticamente e esta persuasão perde efeito com igual facilidade. Entro no coro para apedrejar com palavras uma atitude intolerável no presente século, mas também admito quando as coisas passam dos limites.

Esta semana, ou semana passada (memória de peixe) uma atitude racista de uma mulher despertou a revolta de centenas de milhares de pessoas, uma simples palavra direcionada para a pessoa errada causou um burburinho gigante e, claro, levou a atitudes ridículas por parte da população.

Não defendo a mulher, ela merece ser punida pela lei, mas também já defendi aqui antes que não concordo com quem resolve fazer justiça com as próprias mãos, mantenho minha opinião que numa sociedade regida por leis como a nossa, a população deve guardar tochas e paus e deixar a polícia fazer o trabalho que é paga para fazer.

Mas a população não gosta de parecer inerte, em dois segundos vandalizaram a página na mulher em trocentas redes sociais, a cara dela estampava jornais, revistas, sites e a timeline de muita gente. Ninguém liga mais pra ela, por falar bobagem num jogo de futebol ela se torna o judas que deve ser malhado, o Hitler brasileiro... foda-se que tem muita gente assim, ninguém liga pra mudar como o povo pensa, mas todo mundo quer punir quem pensa alto.

Apedrejaram a casa da mulher, queimaram a casa da mulher e ninguém percebe que esse povo está descontrolado, e ninguém liga para o fato de que, certamente, muita gente condena a atitude da moça mas pensa como ela. Muita gente, incluindo os alvos do preconceito, são preconceituosos. Mas é assim que funciona nossa lei, tanto a do papel como essa barbárie que é a lei do povo, não pode falar mas pode matar e jogar no matagal, não pode escrever mas pode mudar de rua quando alguém diferente passa.

Estes crimes de calúnia, injúria e difamação no Brasil só servem para entulhar nosso judiciário de brigas sem sentido e esconder o verdadeiro problema, uma sociedade intrinsecamente doente com um preconceito gigante que não quer tratar a doença e que nem assume estar doente.

Não adianta queimar a casa da moça, ela só vai aprender que não pode falar o que pensa quando existem câmeras por perto, mas o pensamento, que é o verdadeiro problema, continua lá... Preconceito não se cura com boca calada por lei inútil e sim com boca aberta discutindo da onde vem o problema e como ele pode, mesmo que aos poucos, ser resolvido.