Num momento absolutamente inoportuno eu fui definido indiretamente por uma frase, uma frase que se direcionava a mim e a mais algumas dezenas. 

Falávamos de textos (mais precisamente da análise deles), e o mestre já havia inebriado minha mente com seus pensamentos, com suas citações e com seus trejeitos absolutamente fora da norma, mas o que é norma num local dedicado ao saber? Objeto de estudo tão cheio de mérito quanto a quantidade abnormal de excremento de pombos na Praça da Sé.

Mas, como bom difusor de saber, o mestre conseguiu introduzir em seu discurso mais uma de suas citações, e esta dizia, com outras palavras, que o texto tem o poder de fascinar porque não possui imagens.
Exato! Num mundo construído cada vez mais de imagem, som e movimento, uma forma extremamente arcaica de comunicação ainda permeia todas as áreas do conhecimento, ainda está presente na maioria esmagadora de objetos no nosso cotidiano. E é aí que mora o perigo maior, a escrita é uma arma utilizada por um homem sem rosto, todos podem sofrer suas consequências sem ao menos saber quem os atingiu, o que é maravilhoso.

Isso me fez refletir minha própria existência literária, pífia se comparada à dos menores autores modernos, requintada se posta frente a frente com as mais banais das minhas próprias ideias.

A escrita, para mim, não é um meio de abrir caminhos para o físico, é uma barreira para me manter longe do desconfortável. A escrita é uma maneira segura de penetrar na mais assustadora das situações e desconstruir seus perigos até que se tornem apenas mais um aglomerado de átomos e/ou ideias num universo mais grandioso que as mentes que o descobre.

A escrita tem o poder de esconder o assassino e mostra-lo como ele realmente é, ou como gostaria de ser, ou como deseja que os outros pensem que é. A escrita é o maior problema do mundo, porque é nela que nascem as soluções.