O Senhor Hiposcrisia vestia um sapato bonito, de marca cara. Sapato este que era fabricado num galpão de uma fábrica afegã que tinha entre os empregados uma menina de nove anos, mal vestida, suja e esfomeada. A garota 10, como era conhecida pelos seus patrões, produzia setenta sapatos diariamente e havia sido advertida pelo chefe uma semana antes, se sua produtividade não dobrasse em duas semanas ela seria posta para fora, assim como sua mãe. 10, descalça, queria comprar um frango velho e pequeno para dar de comer aos irmãos no domingo, mas sabe que não vai conseguir, as moedas não são suficientes para o pão, quiçá carne.


Enquanto isso Senhor Hipocrisia sai de um restaurante na Barra, as calças apertadas confirmam a história que conta aos amigos enquanto palita os dentes: "Comi como um porco", e completa: "Um porco bem vestido". Os risos são abafados pela gritaria, S.H., como gosta de ser chamado, pega o megafone e dá início ao protesto:

"ANIMAL TAMBÉM É GENTE!" ele grita e a multidão repete eufórica. Ninguém ali está descalço, sujo ou esfomeado. Todos alí podem comprar um, dois ou três frangos para alimentarem a sí mesmos. São porcos consumistas, mas são porcos bem vestidos, calçados com pares de sapato feitos á mão por números no Afeganistão.


O protesto é de uma ONG famosa, da qual S.H. é presidente. Lutam pelo fim da utilização de animais em pesquisas científicas, sejam elas qual forem, argumentam que a utilização de animais para testes não é necessária "Se é produto de gente, que seja testado em gente", consideram futilidade o teste de uma base para pele em coelhos, mas relevam o fato de que esta base é a única chance de milhares de vítimas de queimadura se sentirem normais. Ignoram que o creme anti-sinais, testado em ratos, salva a vida de uma menina diariamente, menina esta que há dois anos seria mais um número na tabela de suicídios.

No Afeganistão um grito toma conta da produção, as máquinas não são desligadas e números continuam produzindo sapatos de marca. Uma poça escarlate se expande lentamente no posto de 10. A garota, debruçada sobre a máquina, parece estar em busca de algo, apenas a ponta dos pezinhos imundos toca o grande lago vermelho que agora se formou, mas a ponta do indicador da mão direita ainda toca a pequena moeda prateada, o frango velho estava tão próximo.

S.H. vai para casa no fim da tarde, tira seus sapatos caríssimos e os coloca no armário, junto com os dez outros pares. Nenhum de couro, isso seria desumano com quem "também é gente" e todos com a marca vermelha do trabalho de números que, vejam só, são tratados como nada.

10, se junta a outros dez, no fim de semana. S.H? Triunfa com a lei recém-aprovada, ele é do bem, defensor dos animais, sua ONG venceu novamente. A ciência? Fica cada vez mais atada, mais limitada. A humanidade? Cada vez mais hipócrita. E o frango velho? Ainda come e vive bem.