Em pouco tempo a batina, antes branca, foi ensopada com o sangue das vítimas. Hereges! Pensava ele quando mudou de nome, mas logo mais o pano que antes parecia acolhedor e carinhoso, ficava cada vez mais vermelho e cada vez mais pesado.
O frio da umidade e o cheiro putrefato lhe embrulhavam o estômago. Já não comia, já não bebia o sangue do cordeiro que lhe era servido em cálices de ouro puro. Os cômodos do palácio já não evitavam os pesadelos constantes, a roupa de cama, antes de absorver a vermelhidão que despendia das vestes, mostrava seu passado em tela de seda, em alta definição.
Chorou. Mas era rei, e reis dignos não choram os erros do passado, eles os mascaram. Foi assim, tentando mascarar seus erros que sua sabedoria lhe apunhalou o peito. Confiou no cordeiro errado, este agora o tinha  no enforcador, como um cão que precisava ser domado. Estava a mercê de quem antes beijava-lhe os pés.
Sua vida não tinha mais valia, seu título estava em migalhas, toda vez que lhe recorriam como majestade ele olhava relutante, sabia que o rei já havia morrido, mas ainda carregava o manto de sangue. A dor lhe aumentava a cada dia, era visto por seus seguidores como grande conselheiro, mas despertava a raiva dos mesmos quando discorria sobre qualquer assunto, estava constantemente errado.
Estava velho, velho de alma, velho de corpo. E quando disse isso para milhares que o assistiam, disse com a voz embargada, porque queria lhes contar a verdade, queria lhes confessar os crimes que cometera quando ainda jovem, queria confessar que ajudara os impuros, que acobertara os pecadores, que foi tolo ao confiar em seu servo e que apenas o perdoou pois queria mantê-lo calado. Mas não o fez, sua chance de pedir perdão foi ofuscada pela possibilidade de desmascarar aquele reino que já não era mais seu, reino este que desde os primórdios da civilização pinta suas paredes vermelhas de azul celeste, que banha carne humana em ouro puro e que sobrevive do sofrimento de milhares. Não o fez por medo de ser ele o libertador de seu povo, quis sair como santo para não revelar que foi demônio e que agora é o deus... da vergonha.