Chama de velha mas ama, ama porque é velha e não apesar disso. Ama o cheiro das paredes velhas, dos sofás velhos, da cortina empoeirada e velha. Ama tudo incondicionalmente porquê tudo ali traz lembranças queridas e velhas.
O cheiro da cozinha lembra da Vó, toda preocupada com o almoço do domingo e com o ponto do doce de leite, lembra dela dizendo, como se estivesse num programa de TV: “Se escurecer demais amarga, olha aqui meu filho, abre a mão... Viu, tá bom não tá? Claro que tá, vou tirar do fogo, depois que esfriar tu come porque quente dá dor de barriga.”
A cadeira velha e arranhada lembra do Vô sentado, enrolando o cigarro de palha, cortando fumo e contando causos da época que painho não pensava em nascer. Falava de tudo com propriedade e ninguém ousava contrariá-lo.
Essa velhice é cheia de saudosismos, de nostalgia... Deixa triste pela cadeira vazia, pelo fogão à lenha apagado, mas traz felicidade pois é lembrança física, é memória palpável, cheirável e amável.
E uma lágrima ainda escorre na despedida, antes escorria pelo aceno emocionado que vinha da varanda em direção ao carro. Hoje escorre pela certeza de que o aceno não está mais lá.