Estava lá, poético ser, não era poético de beleza mas poético de produção poética, era poeta, oras bolas. Seu nome não me é importante e não deve ser tomado como tal por ninguém, ele mesmo não assina seus versos, suas prosas...
Mas era poeta arrogante, escrevia versículos menores que formigas no jornal de domingo, mas se sentia digno de Bandeira, de publicação em capa dura. Não era, de fato, era pior que eu nas palavras, pior do que muito pequeno estudante.
Suas rimas eram pobres, como as minhas, e infantis como só. Não se via rolha sem folha, amor sem calor, céu sem Rapunzel, ou coisa sem coisa. Não entendia de métrica, assim como eu, mas ultrapassava os limites, eram versos gigantes e estrofes de verso só. Que diabos pensa aquele homem? Tinha vontade de agarrá-lo pelo colarinho e meter-lhe um Quintana na goela: "Tome e engole um pouco de vocabulário seu despoetizado."
Comprei-lhe, outro dia, um dicionário de sinônimos, afinal, ao ler aquelas palavras cuspidas de maneira ignorante  pelo papel, me solidarizei com a falta de "rima boa" do sujeito. Entreguei-o num saco de presente, ele pegou, abriu, olhou, revirou os olhos, pousou o palavreado todo na mesa e se pôs a escrever na caderneta. Na manhã seguinte, jornal quentinho, me pus a ler:

"Sujeito malcriado,
Ser mal-educado.
Preocupa-se com poesia alheia,
Se esquece do que lhe é falado.
Poesia não é métrica e nem rimado.
Seja no campo, na cidade ou na areia...
Poesia é escrita na veia,
Com caneta de condenado."

Tenho desde então este pequeno poema enquadrado em minha parede. Não leio mais a poesia do homem, não o vejo mais naquele lugar. Vejo as pessoas comentando, parece que conseguiu brochura, não é capa dura, mas um dia há de chegar lá. Toda vez que vejo o poeminha me encho de rancor, agora sei, que homem condenado é condenado para sempre, seja a pagar por crimes, seja a escrever, como eu e o poeta despoetizado.