Acordaram no colchão, pois a cama havia sendo vendida para pagar a conta de luz, olhando um para o outro. Pela janela aberta os raios de sol entravam juntamente com uma brisa fresca, o cheiro do orvalho lhes preenchia o vazio do quarto desmobilhado.
Ela levantou e seguiu para a janela, ele veio logo atrás, se sentou no parapeito frio e fez cadeira para sua amada. Ficaram quietos por vários segundos, ele pensava nos problemas e nas contas, ela olhava para um bem-te-vi que se mudara para a árvore atrás da casa na manhã anterior. Até que ele quebrou o silêncio:
- Seu cabelo cheira à orvalho. - Sorrindo, suspirou com o queixo apoiado no couro cabeludo dela.
- Não quero falar de mim. - Suspirou ela, com a voz monótona. - Viu o bem-te-vi?
- Vi ontem... - disse ele com a voz desinteressada.
- Agora ele tem uma namorada, ela está ajudando a construir o ninho. - Parecia fascinada.
- Talvez eles também gostem do cheiro do orvalho. - Ele sorriu, mas ela não viu.
- E se nos tirarem a casa? - Ela mudou de assunto, com a voz chorosa. - Não quero sair daqui.
- Construímos um ninho aqui perto. - Abraçou-a - Você me ajuda?
- Sim. - Uma lágrima lhe escorreu o rosto.
Ambos ficaram ali, na janela, cheirando orvalho e assistindo o tempo passar.